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"saúde pública" ou "neomoralismo da saúde"?

 É grande e notória a influência exercida pelo ponto de vista da chamada “saúde pública” sobre o debate público atual no que diz respeito aos hábitos da população - cigarro, bebidas alcoólicas, alimentos ricos em gordura, uso do cinto de segurança etc. Em que pese a complexidade desses temas, quer parecer-me que o principal argumento dos defensores da “saúde pública” é o seguinte: as liberdades individuais podem ser relativizadas quando aquilo que o indivíduo faz onera, direta ou indiretamente, a sociedade como um todo. Em casos assim, o indivíduo deveria abster-se de praticar aquilo que, acreditando prejudicar apenas a si mesmo, costumava praticar.

    Tomem-se os exemplos mencionados acima: no caso do cinto de segurança (uma das primeiras causas ganhas pelos defensores da “saúde pública”), há uma clara interferência do Estado na liberdade individual, pois o sujeito é obrigado a vestir um equipamento cuja finalidade é proteger a si mesmo (não há qualquer risco para terceiros). Tal interferência se justifica, em tese, porque, se ele não usar o cinto e sofrer um acidente, o Estado terá de arcar com as despesas para tratá-lo (supondo que ele não tenha plano de saúde privado e seja tratado no sistema público). E não seria justo para nós, que sustentamos com impostos esse sistema, arcar com os custos gerados pela inconsequência de tal indivíduo no cuidar de si mesmo.

    No caso do cigarro (que os mais aguerridos defensores da “saúde pública” gostariam de proibir terminantemente), tem-se a mesma situação: ao fumar, e ao fumar mesmo após todas as campanhas do pessoal da “saúde pública” contra o cigarro, o indivíduo entra numa trajetória que o levará, mais cedo ou mais tarde (a prevalecerem as estatísticas, o que nem sempre é o caso), a doenças cujo tratamento é caro para o sistema de saúde, onerando novamente os contribuintes. Como o vício causado pela nicotina é fortíssimo, admite-se que os adultos que já o adquiriram possam continuar fumando, mas faz-se de tudo para evitar que os mais jovens o adquiram também: eis o argumento que prevaleceu na proibição aos cigarros com sabor (que aumentariam a tentação da garotada).

    No caso, por fim, do álcool e das comidas com excesso de gordura (ou sal, ou açúcar etc), segue-se o mesmo tipo de lógica: admite-se (com o nariz torcido) que eles ainda sejam consumidos aqui e ali, por este ou aquele tipo de pessoa, mas faz-se de tudo para bani-los gradativamente: restringe-se cada vez mais a propaganda, proíbe-se em uma série de locais (vide o projeto de lei do Deputado Campos Machado), excomunga-se o adulto que fornece álcool para o menor de idade (mesmo que ele tenha 17 anos e 11 meses) etc. Tudo porque nós, os contribuintes, não podemos arcar com os custos que esses maus hábitos acarretam ao sistema público de saúde.

    Mas eu me pergunto: se o indivíduo que deixou de usar o cinto, ou que fumou, ou que bebeu em excesso, não viesse onerar o sistema agora, o que seria dele? Ele viveria indefinidamente? Certamente não! Possivelmente, ele viveria mais; talvez muito mais. Ora! Se continuarmos naquele raciocínio dos custos e benefícios (que nós, defensores das liberdades individuais, nos recusamos a utilizar quando se trata de pensar as escolhas de um ser humano), a conclusão me parece inevitável: o indivíduo de nosso exemplo envelhecerá e, envelhecendo, custará muito mais aos cofres públicos (seja através do sistema previdenciário, seja através do próprio sistema público de saúde, que terá simplesmente adiado o “problema”) do que custaria se tivesse adoecido antes.

    E então eu me pergunto novamente, e estendo a pergunta a leitoras e leitores: o que está realmente por trás de toda essa onda pró-“saúde pública”? Cálculos racionais, como eles querem fazer-nos crer? Ou um moralismo mal disfarçado - a que costumo chamar “neomoralismo da saúde” - que quer impor a toda a sociedade uma certa noção de como cada um de nós viver (atropelando com isso uma série de conquistas do moderno Estado de direito)? Não me parece haver muita dúvida, não é?



Escrito por Costa Mattos às 22h06
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com 30 anos de atraso, eis que 1984 está mesmo chegando...

von Fernando Costa Mattos, Donnerstag, 22. März 2012 um 11:11 ·

A leitura combinada de duas notícias, na Folha de hoje, me chamou a atenção para o quanto a profecia de Orwell está próxima de realizar-se, ao menos no que diz respeito ao controle total da vida privada. Uma delas fala da fiscalização da velocidade média dos carros, através de chips instalados nestes (págs. C1 e C3). A outra (pág. C8)tem o seguinte título: "Uniforme inteligente entrega aluno que cabula aula na Bahia". Trata-se de um chip (claro!) instalado nos uniformes para que pais e professores possam monitorar permanentemente a movimentação do aluno. Nenhuma das duas contém grandes novidades, mas voltam a suscitar uma séria reflexão sobre a ameaça representada pelos chips à liberdade individual. Estará longe o dia em que os governos convencerão as populações a aceitarem o uso de chips no corpo de todos os indivíduos, sob o pretexto de combater a criminalidade? Sinceramente, não creio. Basta os Estados Unidos começarem (experimentem eleger um republicano nas próximas eleições!) que o resto do mundo vai atrás. É certo que, em alguns casos, os chips podem ser benéficos sem comprometer a liberdade individual: é o caso do controle de velocidade, por exemplo - muito embora se pudesse, e se devesse (agora com mais razão), questionar os limites estipulados, que são ridiculamente baixos em muitos casos (vide os 60 km/h recentemente estabelecidos para diversos corredores expressos de São Paulo). Mas o mesmo chip que permite monitorar a velocidade poderá ser usado, num futuro próximo, para monitorar toda a movimentação daquele carro, de modo que o Estado sempre saberá - como os pais de alunos na escola baiana em questão - onde o indivíduo está, de onde veio, para onde irá. Preocupante, não?!... Por enquanto, ainda podemos circular a pé, se quisermos evitar o "grande olho" sobre nós. Aproveitemos então, porque em breve não poderemos nem isso. É. Saudades do verdadeiro 1984, quando Chips eram ou as batatas de saquinho (estas mesmas que, hoje, estão prestes a ser proibidas pelos dragões da saúde pública), ou o inesquecível seriado com os policiais Poncherello e Baker (que patrulhavam as estradas sem chips de outrora)!

  • 4 Mal geteilt
    • Bruno Nadai 
      Ainda podemos andar a pé e de bici, mas a ameaça não tem limites (pode-se, em breve, ser obrigatório às fábricas de calçados insalar chips). Mas, tirando essa concordância, me desculpe, não acho que 60 km/h seja devagar pra um corredor qual...Mehr anzeigen
      Donnerstag um 12:01 ·  ·  2
    • Lilly Soucek Nem o pedacinho da ponta do iceberg, existem mais "n" formas de invasão, controle e manipulação de nossa privacidade que não são manifestadas, conhecidas popularmente ou divulgadas pelos veículos decomunicação em massa... isso é que dá medinho.... orwell revirando no túmulo como lixo do BBB... lástima... rs
      vor 18 Stunden ·  ·  1



Escrito por Costa Mattos às 10h21
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A "saúde pública" e o fim da liberdade

A principal manchete da Folha de ontem noticiava a proibição dos cigarros com sabor no Brasil. Enquanto isso, tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo um projeto de lei do deputado Campos Machado que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em todo tipo de local público, como calçadas, parques, praias etc.

                Trata-se de duas questões aparentemente distintas, mas que se revelam igualmente sintomáticas daquele fenômeno que, em artigo para a mesma Folha (19.11.2011, pág. A3), denominei “neomoralismo da saúde”. Um fenômeno perigoso que, sob o pretexto de salvaguardar a saúde pública, passa por cima das liberdades individuais, pondo claramente em risco a possibilidade – supostamente consagrada em um Estado de direito – de os indivíduos decidirem como conduzir suas próprias vidas.

                No caso dos cigarros com sabor, a afronta à liberdade de escolha é flagrante. Trata-se de uma droga até aqui considerada lícita, utilizada por muitas pessoas, que se vê subitamente banida do mercado (em que pese o tal tempo de adaptação concedido às indústrias). Quem optava por fumá-la – e tinha nessa opção, portanto, um direito adquirido – será forçado a mudar seus hábitos de vida.

                É preciso sublinhar também o quanto esse caso se diferencia daqueles em que a proibição de certas condutas visava proteger terceiros. O fumo em bares ou restaurantes, por exemplo, teria consequências significativas não apenas para os que voluntariamente se sentassem à mesa com o fumante, mas também para os funcionários do estabelecimento (cuja esfera de liberdade estaria, assim, sendo invadida pela prática dos fumantes).

                No caso dos cigarros com sabor, alega-se “proteger os jovens”. Afora os ares totalitários do argumento (utilizado há 2.500 anos, não nos esqueçamos, para justificar a condenação de Sócrates à morte!), a sua extensão a outras situações nos levaria a um mundo de completo policiamento dos costumes, coibindo-se qualquer coisa capaz de desviar os nossos púberes do “bom caminho”: beber na presença de menores (já eram as festas de família!), jogar a dinheiro na frente de menores (foi-se a tranca dos avós!), oferecer refrigerantes ou salgadinhos a menores (como já se proíbe nas cantinas de escolas!), falar palavrão na frente de menores (nesta rodamos todos!) etc etc.

                Exagero? Está aí o projeto do Sr. Campos Machado para mostrar que não. Os que defendem a lei utilizam argumentos que não dizem respeito às consequências diretas das condutas que se quer proibir, mas sim ao impacto da medida nos hábitos da população, mensuráveis em termos de saúde pública (novamente ela!). Se as pessoas forem induzidas a beber menos, isto diminuirá os acidentes causados por embriaguez ao volante (como se não bastasse proibir esta última!), os custos que as doenças relacionadas ao álcool acarretam para o governo etc. Ora! Se é isso o que querem, por que não proíbem de uma vez o consumo de álcool?!...

                O contraste entre os dois modos de pensar a questão – o da saúde pública e o das liberdades individuais – fica nítido se comparamos os artigos de Luiz Felipe Pondé e Alberto Araújo, na mesma Folha de ontem (pág. C10), sobre a questão dos cigarros com sabor. Enquanto Araújo desfia uma sequência interminável de estatísticas, reduzindo as escolhas individuais a fatores que devem pesar o mínimo possível no orçamento governamental, Pondé tenta mostrar como a opção pela saúde é apenas uma entre muitas, descabendo ao Estado interferir numa questão tão antiga – e indefinida – quanto a própria existência humana.

                Ao que parece, porém, já não cabe a nós, meros indivíduos, determinar o que é, para nós, a existência. A “saúde pública” já a definiu – para todos. E o legislador está apenas aplicando a definição. Quem não se enquadra que se corrija (ou seja preso).



Escrito por Costa Mattos às 16h35
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Nietzsche e a pseudo-maturidade da primeira autocrítica

 

von Fernando Costa Mattos, Mittwoch, 23. November 2011 um 08:57

 

 

 

 

Diz Nietzsche, em BM 31: “Nos anos da juventude, ainda veneramos e desprezamos sem a arte da nuance, que constitui nossa melhor aquisição na vida, e, como é justo, pagamos caro por atacar de tal modo com Sins e Nãos as pessoas e as coisas. Tudo se acha disposto para que o pior dos gostos, o gosto pelo incondicional, seja cruelmente logrado e abusado (...) a juventude é, em si, algo que falseia e engana. Mais tarde, quando a alma jovem, martirizada por puras desilusões, finalmente se volta desconfiada contra si mesma, ainda e sempre ardente e selvagem, inclusive na sua desconfiança e no seu remorso: como se dilacera então, como se vinga por sua demorada auto-obcecação, como se ela tivesse sido uma cegueira voluntária! (...) e sobretudo tomamos partido, tomamos partido por princípio contra a “juventude”. – Um decênio depois: e compreendemos que tudo isso também – era ainda juventude!” (Grifos meus.)  Boa imagem, não?!... Permite pensar tanto na história da filosofia, lançando luz sobre a ingenuidade do ceticismo (que se acha mais esperto e maduro que o dogmatismo, mas é tão pueril quanto este), como na história de vida de muitos indivíduos, que se acham geniais ao fazer a autocrítica de sua posição juvenil, mas não percebem o quanto tal autocrítica é, ela própria, carregada de ingenuidade (porque opera com “Sins e Nãos” absolutos, sem nenhuma “arte da nuance”). É o caso, muito claramente, de certos ex-esquerdistas fanáticos que fazem de suas vidas uma cruzada fanática contra a ingenuidade do “esquerdismo” – sem se dar conta do quanto a nova tomada de posição é igualmente tola em seus exageros e em sua crítica inflamada à “juventude”. Sim, sim: isto vale também para muitas das vozes que se insurgiram, revoltosas, contra os “revoltosos da USP”.



Escrito por Costa Mattos às 17h04
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desabafo na madrugada

 

von Fernando Costa Mattos, Mittwoch, 23. November 2011 um 03:07

 

 

 

 

A morte é certa. Antes dela, é preciso fazer algo que fique - passar da contingência à necessidade, nos termos de Sartre. Como fazê-lo? Deixando ações? Deixando textos? Deixando ambos?...

 

Como a morte, contudo, há outra coisa que é certa: bloquear a reflexão (a partir de um ponto de vista que se julga "o verdadeiro") é uma forma de bloquear a própria vida, enquanto tal anseio de passar à necessidade. É o que fazem os dogmáticos, à "direita" e à "esquerda" - querem excluir o que lhes seja diferente. Caso dos racionalistas dogmáticos, a demonizar o sensível; caso dos empiristas céticos, a demonizar a especulação "não lastreada no real" (recidivas do mais tacanho relativismo, em autores que se dizem "críticos").

 

"Quanto mais sei, mais sei que não sei": se há alguma sabedoria nesta frase, ela vale para o indivíduo, isto é, para cada um de nós. Qualquer convicção de estar certo para além da subjetividade (no sentido mais estrito do termo) deveria, por princípio, ser posta sob suspeita. E o questionamento que o outro nos faz deveria, no mínimo, merecer uma consideração ponderada. Quem desdenha de pronto a perspectiva do outro é essencialmente dogmático.

 

Habermas perguntava a Foucault: por que lutar contra o poder, se tudo não passa de poder? Uma boa pergunta. Mas por que os "habermasianos" não admitem a réplica: por que lutar pela emancipação, se a emancipação não é mais do que uma tendência inscrita (ou não) no real (e, portanto, contingente)?...

 

Sim, claro, sou a favor da emancipação. Mas me permito pensar para além dela. Pecado capital?!... Aos olhos de um certo dogmatismo, parece que sim...

 

Mas a morte está ali adiante, a mostrar-me que não tenho por que submeter-me ao dogmatismo alheio. A certeza da morte me faz livre.


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    • Dioclézio Faustino 
      Fernando, a minha madrugada ficou mais empolgante ao ler o seu texto. A morte é um tema caro. Mas, a meu ver, a franqueza é uma das mais belas virtudes dos vivos! Não pude deixar de não lembrar, e trazer aqui, um texto do Machado de Assis s...Mehr anzeigen
      vor 11 Stunden ·  ·  1
    • Roberta Durante Vida inteligente na madrugada!
      vor 10 Stunden · 
    • Fernando Costa Mattos Excelente, Dioclézio! Também me identifico muito com a perspectiva machadiana (que tem muito de Schopenhauer)!...
      vor 8 Stunden · 



Escrito por Costa Mattos às 17h03
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dr. drauzio e sua tresloucada obsessão

von Fernando Costa Mattos, Dienstag, 22. November 2011 um 02:23

 

 

O cara perdeu de vez o juízo?! Vejam a última pérola, na Folha do último sábado (19/11): "O cigarro é o mais abjeto dos crimes já cometidos pelo capitalismo internacional. Você acha que exagero, leitor? Compare-o com outros grandes delitos capitalistas; a escravidão, por exemplo: quantos viveram como escravos? E quantas crianças, mulheres e homens foram escravizados pela dependência de nicotina desde que essa praga se espalhou pelo mundo, a partir do início do século 20?" É ou não é um desrespeito à memória dos escravos (sem falar no insulto à nossa inteligência)?...



    • Marialva Azevedo Eu não tive o desprazer de ler porque não leio nem assino mais nada. Enjoei dos reinaldos, dos diogos, dos drauzios... (em minusculas de fato). Se leio sinto náuseas e cólicas.Então leio a Turma da Mônica e livros clássicos e antigos.

    • Marialva Azevedo Aliás eu encontrei e estou relendo a 1a. Edição da Recordação das Casas dos Mortos. Imperdível. Depois lhe passo, se quiser. Beijo.

    • Fernando Costa Mattos Se for em russo eu quero!...rsrs
    • Fernando Costa Mattos 
      Quanto à obsessão drauzio (em minúsculas, certamente!), ninguém faz o seguinte raciocínio: uma vez que uma pessoa já seja fumante (e, portanto, viciada), ela tem duas alternativas: pode tentar parar de fumar ou aceitar o vício. A primeira a...Mehr anzeigen

      Marialva Azevedo
       Não é em russo, mas se quiser a 1a edição da "Mãe" de Gorki, pode ler em alemão....rs

    • Marialva Azevedo
       
      O problema não é só a opção do fumante em parar ou não de fumar, que seguramente não existe mais. A opção por fumar simplesmete NÂO existe para os drauzios e afins. Isso é ponto pacífico para esses loucos "donos da verdade". Mas o pior é qu...Mehr anzeigen
    • Fernando Costa Mattos Não sou fumante, mas concordo em gênero, número e grau - por isso abracei a causa dos fumantes!...
      Gestern um 14:00 · 



Escrito por Costa Mattos às 17h02
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aos leitores da Veja (e do Reinaldo Azevedo)

von Fernando Costa Mattos, Donnerstag, 17. November 2011 um 11:52

 

A propósito dos leitores da Veja, uma citação de Nietzsche: "A grande maioria dos homens, não importa o que pensem ou digam do seu ‘egoísmo’, nada fazem durante a vida por seu ego, mas apenas pelo fantasma de ego que sobre eles formou-se nas cabeças à sua volta e lhes foi comunicado – em conseqüência, vivem todos numa névoa de opiniões impessoais e semipessoais e de valorações arbitrárias, como que poéticas, um na cabeça do outro, e essa cabeça em outras: um estranho mundo de fantasmas, que sabe mostrar uma aparência tão sóbria! Essa névoa de opiniões e hábitos cresce e vive quase de forma independente das pessoas que envolve; dela depende o enorme efeito dos juízos universais sobre o ‘homem’ (...) – tudo pela razão de que nenhum indivíduo dessa maioria é capaz de contrapor à pálida ficção universal um ego real, a ele acessível e por ele examinado, e assim aniquilá-la." (Aurora, 105)

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Escrito por Costa Mattos às 16h58
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ainda sobre o Dr. Drauzio e sua função de pregador moral (em resposta ao Dr. Gustavo Gusso)

von Fernando Costa Mattos, Mittwoch, 16. November 2011 um 13:34

 

Pois é, meu caro Gustavo Gusso: o mundo de hoje está dividido entre aqueles (majoritários) que aderiram de bom grado (acriticamente?) ao novo código moral e aqueles que se recusam a aceitá-lo. Tal código tem por princípio supremo (face ao qual os demais ficaram em segundo plano) a preservação e extensão da vida individual a todo custo: tudo o que importa, hoje, é ter "hábitos saudáveis" (como se o conceito de "saudável" não fosse convencional e, portanto, relativo e questionável). Quem os tem por sorte (tendências genéticas ou o adestramento prévio pelos pais) está feito: vive sem culpa e serve de modelo aos demais. Quem não os tem está fadado a viver sob o cutelo da culpa: ou se ajusta ao modelo e se redime, ou... que sofra as consequências!... Sequer se considera, por exemplo, que um determinado hábito pode estar inserido em um sistema psíquico de pesos e medidas, e o seu abandono possa acarretar o comprometimento das demais partes do sistema (quantas teses de doutorado não se teriam perdido, por exemplo, caso os seus autores tivessem que parar de fumar?!). E aí a questão teria de ser outra: o que vale mais a pena? continuar a ser como se é, e continuar a realizar o que se realiza sendo assim (correndo o riso, digamos, de viver dez anos menos lá na frente), ou reformular inteiramente o próprio sistema de vida e, eventualmente, deixar de realizar certas coisas (em nome de viver dez anos mais lá na frente)? Ora! O fracasso retumbante da maior parte das dietas (mesmo em quem se dispôs à conversão) comprova: para quem não é naturalmente afeito a dietas frugais, um cardápio de frutas e legumes implica um déficit de agressividade no cotidiano que pode pôr uma carreira a perder. Mas aí é que está o problema: nos mandamentos da bíblia medicinal não entram em conta outros fatores que não o ideal da "vida a todo custo". Não entra em conta sequer o direito individual de escolha (relegado hoje, aliás, ao quinto plano): segundo essa ideologia, quem escolhe pizza em vez de salada; chocolate em vez de fruta; uísque em vez de suco light; cigarro em vez de ioga; etc etc, não o faz livremente, pois quem comanda o seu comportamento não é ele mesmo (?), mas o seu cérebro, de maneira inconsciente. Ou seja: ele teria de curar-se primeiro, para apenas depois poder escolher com liberdade. Ora! Basta um rápido olhar sobre a história da moral para ver que essa explicação se assemelha às mais severas formas de controle social (mitologias, religiões, tiranias etc): divide-se a sociedade em indivíduos bons e maus (possuídos e não possuídos, fiéis e hereges etc), e apenas aqueles são considerados livres, cabendo a estes duas únicas alternativas: ou converter-se (e tornar-se livre), ou... sofrer as consequências! (queimar no inferno, ser punido pelos demais etc)... Ora! Quando o bonzinho Drauzio prega o fim do cigarro no Brasil, e estipula (de próprio punho e sem nenhuma cerimônia) o "dia do Brasil sem cigarro", ele está passando por cima do direito do fumante a manter-se fumante do mesmo modo como os líderes religiosos de outrora (ou de sociedades fanáticas atuais) passam por cima do direito do ateu de manter-se ateu. Ele parece esquecer-se apenas de que um dos pressupostos da democracia (se é que ainda queremos ser democráticos) é a suposição de que, a partir de uma certa idade convencionada (16? 18? 21?...) todos os indivíduos têm de ser considerados igualmente soberanos (livres) na administração de suas vidas. E nada - muito menos os hábitos alimentares!!! - pode justificar que uns sejam considerados mais livres do que outros. (Responder-me-ão que ninguém está obrigando ninguém a mudar seus hábitos, que são só "campanhas educativas" etc etc. Eu me limitarei a pedir-lhes, antecipando a réplica, que deixem de ser ingênuos e prestem mais atenção ao que está acontecendo à sua volta!...)


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  • Cristiana Cardachevski gefällt das.
    • Cristiana Cardachevski Muito bom, Fernando!!! Ótimo texto de contra-peso! Esse tipo de reação é muito bem vinda!!!!!!! Parabéns...e continue a articular suas impressões e ideias coligidas! Baccio
      17. November um 08:25 · 



Escrito por Costa Mattos às 16h57
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(12/11)
Trocando em miúdos: de onde veio tanta caretice?!... Quando a gente era moleque, tomava cerveja com 14 anos, dirigia sem carteira, curtia à vontade... e havia muito mais erudição no mundo! Afinal, vamos e venhamos: do ponto de vista intelectual, os neomoralistas de hoje (Drauzio, Alckmin, Reinaldo Azevedo e quetais) são de uma platitude que dá dó!...

    • Rosa Gabriella E por que essa violência toda? Por que as pessoas têm tanta raiva dos estudantes?
      12. November um 02:53 · 
    • Roberta Durante Ah,virou moda falar mal do Drauzio?
      2. November um 06:21 · 
    • Fernando Costa Mattos Posso ser franco, Rosa? Como já sugeri em outro post (sobre a psicologia dos PMs), o que melhor explica essa grita generalizada contra a USP, a meu ver, é a categoria nietzschiana do RESSENTIMENTO. Essa turma morre de inveja dos "maconheiros da FFLCH"!...
      12. November um 10:27 ·  ·  1
    • Fernando Costa Mattos Roberta: como assim "virou moda"? Alguém mais (além de mim) falou mal do Dráuzio? Me apresenta essa pessoa que eu quero conhecê-la!!!...
      12. November um 11:28 · 
    • Rosa Gabriella concordo totalmente com a explicação pelo ressentimento - é exatamente o que eu acho.
      12. November um 15:43 ·  ·  1



Escrito por Costa Mattos às 16h55
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possível saldo das discussões

von Fernando Costa Mattos, Samstag, 12. November 2011 um 01:21

 

Toda essa discussão sobre a PM na USP tem, a meu ver, um aspecto positivo: as pessoas estão se mostrando mais, todos os preconceitos estão vindo à tona. Ao contrário do que vinha prevalecendo desde o fim da ditadura (consenso geral sobre a democracia, pouco questionamento sobre o andamento do capitalismo etc), o pessoal que simpatizava com os generais (abertamente ou de maneira enrustida) pode agora se identificar, sem pudores, com o Geraldinho Opus-Dei e a sua PM Blitzkrieg (vide a Veja e seus arautos, como o Diogo Mainardi e o Reinaldo Dinossauro Azevedo). De outro lado, o pessoal que acreditava na URSS começa a animar-se com os acampamentos anti-Wall Street e achar que a revolução está novamente a caminho. Os extremos se equivocam, mas do seu conflito podem brotar soluções: eis a esperança do iluminista (vide as antinomias kantianas).




Escrito por Costa Mattos às 16h51
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sobre a irrelevância da indignação (quando óbvia)

von Fernando Costa Mattos, Freitag, 11. November 2011 um 18:45

Em homenagem aos tantos indignados do FB, uma citação de Nietzsche (do texto a ser trabalhado na aula de hoje): "Pois o homem indignado, ou quem está sempre dilacerando e rasgando a si mesmo (ou, em seu lugar, o mundo, Deus, a sociedade) com os próprios dentes, pode ser moralmente superior ao sátiro sorridente e satisfeito, mas em qualquer outro sentido ele é o caso mais comum, mais irrelevante, menos instrutivo. E ninguém mente tanto como o indignado." (grifo meu)



Escrito por Costa Mattos às 16h50
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ainda sobre a situação na usp

von Fernando Costa Mattos, Donnerstag, 10. November 2011 um 00:51

 

Em resposta à amiga Gaby Viana, que me perguntou o que eu achava da situação na USP, escrevi o seguinte:

 

Bom, em primeiro lugar devo dizer que não vou à USP há meses. Assim, também não estou acompanhando de perto. Mas tenho visto, aqui no FB, os posts de muitos amigos cuja opinião também valorizo (além de conversar com alguns deles), e creio que, de fato, a ação da polícia foi excessiva. Também não tenho grande simpatia pelas "causas" em geral abraçadas pela turma mais radical da USP (ligada ao PSTU, PCO etc), nem pelas suas atitudes extremas (como invadir a reitoria) que, a rigor, já se tornaram corriqueiras. Mas há pelo menos dois fatos novos neste caso: 1) O Rodas, atual reitor da USP, parece ser um cara realmente complicado. Basta dizer que foi considerado persona non grata na São Francisco, da qual é professor e foi diretor, pelos próprios professores da casa (muitos dos quais figuras tradicionais e respeitadas no meio jurídico). Parece que aprontou poucas e boas quando foi diretor por lá (entre elas deixar todos os livros da faculdade mofando num depósito subterrâneo, que chegou a ser inundado numa enchente, durante uma reforma da biblioteca). E a sua nomeação pelo governador foi a primeira, desde a época da ditadura, que não seguiu a recomendação da universidade na lista tríplice que esta formula por meio de eleições (ele foi o segundo colocado, não o primeiro). Ou seja: embora juridicamente aceitável, a sua nomeação já teve algo de ilegítimo (daí a sua saída ser uma das reivindicações dos "rebeldes"). 2) A presença da polícia no campus é uma questão extremamente complexa, com muitas nuanças que não vêm sendo levadas em conta na exploração do caso pela mídia. Nos Estados Unidos, por exemplo, quem patrulha os campi universitários é a "campus police", que tem poder de polícia como a polícia comum, mas é formada e treinada para lidar com as peculiaridades do ambiente universitário. Não sei como isso funciona na Europa, mas tenho a impressão de que existem leis similares, no sentido de tratar os campi universitários como ambientes que merecem, sim, um tratamento diferenciado. A USP tinha a polícia universitária, mas ela não tinha o mesmo poder da polícia militar. Talvez se pudesse ter cogitado um aumento do seu poder, como alternativa a simplesmente abrir o campus para a polícia militar (ressalte-se aqui o "militar", que é uma peculiaridade da polícia brasileira não correspondente ao que se tem em diversos países civilizados). Não se trata de liberar a maconha na USP, mas sim de respeitar as idiossincrasias de um ambiente em que a liberdade de expressão e manifestação, por exemplo, tem de ser maior do que fora do campus. A turma da Veja não reclama quando se fazem passeatas na Paulista? Não dizem que as manifestações deveriam acontecer num local apropriado? Pois bem: a cidade universitário é, tipicamente, um local apropriado para manifestações (que a polícia militar, por seu turno, é treinada a coibir, ou tolerar com forte vigilância). Aliás, o excesso de vigilância policial já é, por si só, um fator de inibição das manifestações, de um convívio mais livre e humano etc etc. Isto não é sinônimo de desrespeito às leis. É sempre preciso encontrar um equilíbrio entre a liberdade e a lei, e no ambiente universitário esse equilíbrio é particularmente delicado. Seja como for, o que mais me incomoda no caso - daí eu ter repostado muitos posts que li - não é a questão de saber quem tem razão (os estudantes ou as autoridades), mas o modo maniqueísta e caricatural como a coisa vem sendo tratada na grande mídia, como se os estudantes fossem "do mal" e a polícia "do bem"; como se os estudantes da FFLCH fossem todos burguesinhos maconheiros querendo aproveitar-se do campus livre para fumar maconha (um estereótipo ridículo), e os policiais estivessem entrando na USP para purificar um ambiente desde sempre imoral; como se o cumprimento da lei fosse uma coisa mecânica que não tem de ser pesada caso a caso, em função das circunstâncias apresentadas pela realidade concreta. Enfim: acho - realmente acho - que o mundo (e em particular o Brasil) está convergindo para um pensamento único, chapado e óbvio, que só faz empobrecer o debate público e diminuir as possibilidades de reflexão sobre a realidade em que vivemos. Uma pena!... Mas - espero - não o suificiente para nos fazer desistir de fazer valer o pensamento crítico (este que se caracteriza, entre outras coisas, pela capacidade de tomar um distanciamento mínimo das situações antes de julgá-las; de, portanto, ter menos pressa em formular juízos peremptórios e definitivos sobre as coisas). É isso.



Escrito por Costa Mattos às 16h46
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Quando tomamos consciência de que todo discurso é uma perspectiva, de que toda posição é um ponto de vista, torna-se particularmente difícil conviver com as pessoas que, desprovidas dessa consciência, defendem certas teses com unhas e dentes. Eu fico me perguntando: de onde vem essa certeza toda? De onde?!...

 



Escrito por Costa Mattos às 12h51
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álcool ao volante e neomoralismo da saúde

von Fernando Costa Mattos, Donnerstag, 3. November 2011 um 21:18

Tenho me envolvido em algumas polêmicas a respeito do dirigir embriagado, e gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Não sou contra considerar ilícito tal comportamento (enquanto infração punível com multa), e acho que o motorista que tiver causado danos à vida de outrem sob efeito do álcool pode ter sua pena agravada enormemente. Mas acho absolutamente desproporcional à realidade considerar tal comportamento um crime, podendo desencadear a prisão do motorista infrator (tal como decidiu hoje o STF). Pergunto: (1) Por que não é considerado crime dirigir com sono? Se as estatísticas levassem esse fator em conta, tenho certeza de que constataríamos que uma boa porcentagem dos acidentes são causados por motoristas que dormiram mal e acabam por adormecer ao volante. E, se não existir ainda, deve ser fácil inventar algum aparelhinho capaz de medir quanto o indivíduo dormiu nas últimas 24 horas. (2) Por que não é considerado crime dirigir falando ao celular? Baseado na minha experiência própria, considero o celular muito mais perigoso, no sentido de desconcentrar o motorista, do que meia dúzia de chopes. (3) Por que não é consideradocrime dirigir um carro com defeito? Todos sabemos que boa parte dos acidentes (isto já foi comprovado) é causada por carros defeituosos. Sem falar na má qualidade das estradas, responsáveis por outro tanto dos acidentes. (4) Last, but nor least, por que não é considerado crime dirigir mal?Alguém duvidaria de que esta é outra causa importante (talvez a mais importante, sobretudo quando combinada a um dos três fatores acima) para a ocorrência de acidentes? E não seria tão difícil assim realizar exames muito mais acurados para habilitar os motoristas, avaliando-os quanto a coisas bem mais importantes (do ponto de vista da segurança do trânsito) que balizinha e setinha para dar a volta no quarteirão. Por outro lado, também seria fácil fiscalizar esse comportamento: através das milhares de câmeras que se multiplicam Brasil afora (Big Brother em ação!), poderiam ser verificadas diversas situações típicas de incompetência ao volante (dirigir grudado no carro da frente, transitar na faixa da esquerda sem necessidade, transitar no meio da pista (metade do carro na faixa da esquerda e metade na direita), fechar o carro do lado, frear bruscamente sem necessidade etc etc), sem falar naquelas condutas que já são fiscalizadas, mas não são consideradas crime (aparentemente, dirigir a 250 km/h é menos grave, aos olhos do legislador pátrio, do que dirigir cautelosamente, para percorrer um trajeto curto, tendo tomado meia dúzia de chopes). Pois então: como responder a essas perguntas, e entender essas assimetrias da lei, a não ser reconhecendo a efetividade, cada vez maior, desse fenômeno a que venho chamando "neomoralismo da saúde"? Basta uma coisa problemática estar relacionada a tabaco, álcool ou outras drogas para que estes sejam logo considerados o grande vilão da história, sem levar em conta outros fatores e outras nuanças do problema. Fulano usou droga? Que vá para a cadeia! Sicrano fumou em local fechado? Que vá para a cadeia! (Vocês vão ver como isso logo logo será crime!) Beltrano bebeu e dirigiu (não importando se para percorrer uma curta distância entre o bar e sua casa, ou se para pegar uma estrada e andar a 250 km/h)? Que vá para a cadeia!... Que se construam logo novas cadeias! E não porque as atuais estejam abarrotadas (como estamos fartos de saber), mas porque logo a sociedade inteira estará nelas (como no hospício d'O alienista, de Machado de Assis).



Escrito por Costa Mattos às 12h44
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O neomoralismo da saúde, os loucos de Wall Street e a filosofia do "perigoso talvez"

von Fernando Costa Mattos, Mittwoch, 19. Oktober 2011 um 10:57

Dois artigos me chamaram particularmente a atenção na Folha de hoje: "Tolerância zero", do Dr. Giovanni Guido Serri (da FM-USP), e "Os doidos sábios e os sábios doidos", do Elio Gaspari. Pensando na aula de ontem, em que discutíamos a crítica de Nietzsche (nos parágrafos iniciais de Além do bem e do mal) às crenças metafísicas nas oposições de valores (verdadeiro x falso, bem x mal, belo x feio etc), seria interessante notar como o primeiro desses artigos - ao contrário do segundo - se inscreve na tradicional lógica da oposição de valores (já perceptível no próprio título, remissão óbvia à atitude policialesca adotada em Nova York nos anos 1990). Defendendo o "acesso zero" dos menores de idade às bebidas alcóolicas, a ser garantido pelas mais duras punições a todos os que favoreçam ou estimulem esse acesso (donos de bares, propagandas, adultos "irresponsáveis" etc), o Dr. Serri vem engrossar o coro dos "neomoralistas da saúde" cuja crença de fundo, bastante clara, é típica dos metafísicos dogmáticos criticados por Nietzsche: ou se está "conosco", do lado do bem, i.e. a favor da "saúde pública" (outro mantra dessa nova ideologia), ou se está contra nós, do lado do mal. Como se a questão não fosse infinitamente mais nuançada do que parece, segundo essa lógica que recorta tudo em duas metades (bem x mal, saúde x doença etc): conheço inúmeras pessoas que começaram a beber antes dos 18 (bem antes, aliás) sem que isso fosse "o primeiro passo para o abuso e, depois, para a dependência química, com sérios danos à saúde". Não se trata, note-se bem, de fazer a apologia do álcool ou do descuido sistemático com a saúde, mas sim de reconhecer o maniqueísmo envolvido em propostas radicais como as do Dr. Serri e seus aliados (Dr. Dráuzio certamente entre eles) na política de "tolerância zero" contra quase tudo o que, direta ou indiretamente, possa interferir nas estatísticas da "saúde pública". É um maniqueísmo similar ao dos "banqueiros de cartola" analisados por Gaspari, que, torcendo para as coisas ficarem "precisamente como estão", acreditam que a economia de mercado é o bem, e que aqueles que são contra ela conspiram pelo mal da humanidade: qualquer coisa a meio caminho entre os dois lados, qualquer matiz que nuançasse a questão, torna-se incompreensível sob essa ótica. Daí parecerem tão "loucos" - ou tão "sábios", conforme se considere o buraco para que a economia dos banqueiros nos está arrastando - os loucos "sem pauta" (que exigência mais simplista!) que, de Nova York para o mundo, resolveram simplesmente "tocar o barraco" em parques e praças públicas. Sua "pauta", a rigor, talvez seja similar à de Nietzsche nos tais parágrafos iniciais de Além do bem e do mal: denunciar o caráter essencialmente metafísico (i.e. sem qualquer fundamento na realidade física) das crenças que, sob uma aparência de neutralidade científica, vêm dividindo o mundo em pessoas do bem (i.e. pró-mercado) e pessoas do mal (i.e. anti-mercado); ou, para retomar a lógica análoga da "saúde pública", em pessoas pró-saúde e pessoas anti-saúde. A "filosofia" de tais "loucos" (semelhantes, como sugere Gaspari, aos loucos anti-guerra dos anos 1960, aos tchecos loucos de 1989 e assim por diante) se encaixa talvez naquilo a que Nietzsche chama as filosofias do "perigoso talvez", ou seja, aquelas, justamente, que "ousam colocar-se acima do bem e do mal". Elio Gaspari nos propõe um "talvez" no artigo de hoje; Giovanni Serri passa longe de qualquer "talvez" e nos enfia, goela abaixo, mais uma pesada "crença nas oposições de valores".


    • Tatyane Estrela 
      Saúde segundo a OMS já foi definida como "completo bem estar físico, mental e social e não apenas ausência de doença", assim eu aprendi há uma década atrás. Recentemente mudaram a coisa para algo do tipo: "as possibilidades de realização de...

      Renato Kinouchi
       A segunda definição acima caminha na linha do Canguilhem. Na terça dia 25, às 13h, na biblioteca do IP-USP, o Vladimir Safatle vai falar sobre isso, apresentando seu texto "O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem".

    • Gustavo Gusso
       Fernando Costa Mattos só Eles sabem beber com moderação.

    • Pedro Carrasqueira
       O que eu gostaria de saber, mesmo, é se algum economista que seja acredita no que diz, quando enuncia seus diagnósticos e prognósticos. Mas há muito já notei que ninguém tem crenças mais sinceras que os místicos e supersticiosos; logo...

 



Escrito por Costa Mattos às 07h39
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